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6 avanços recentes da ciência que você precisa conhecer

Maiores especialistas do mundo reunidos na Asco apresentaram as novidades que prometem revolucionar o diagnóstico e tratamento de diversos tumores



A medicina vive uma era dourada. Nunca houve tantos avanços em tão pouco tempo, em especial na área da oncologia. E a cada ano a Sociedade Americana de Oncologia Clínica (Asco, na sigla em inglês), o maior e mais relevante congresso do universo do câncer, reúne milhares de profissionais de saúde para apresentar as pesquisas mais quentes do momento.

Durante o evento deste ano, em Chicago, nos Estados Unidos, o que se viu foi a demonstração de uma ciência cada vez mais refinada. Uma aposta no diagnóstico molecular e em terapias-alvo capazes de combater as células cancerígenas sem afetar as saudáveis. E o mais importante: com resultados cada vez mais promissores.

“As abordagens do passado, como a quimioterapia convencional, tinham um efeito muito abrangente. Hoje, as coisas são mais específicas”, explica Ricardo Costa, oncologista do Hospital Sírio-Libanês e da BP – A Beneficência Portuguesa de São Paulo, que participou do congresso. “Estamos testemunhando a validação do uso de testes moleculares em larga escala para identificar mutações genéticas que tornam alguns tumores mais sensíveis a determinadas drogas”, completa.

Essa virada de chave abriu caminho para uma medicina personalizada, que leva em conta as particularidades de cada paciente e de cada tumor. E, consequentemente, para um tratamento mais eficaz e com menos efeitos colaterais.

“A oncologia de precisão é o presente e o futuro”, afirma Stephen Hahn, ex-diretor da Food and Drug Administration (FDA) – agência reguladora de medicamentos nos EUA – e atual diretor médico da Moderna, uma das maiores empresas de biotecnologia do mundo. “É uma abordagem que tem o potencial de transformar a vida de milhões de pessoas”.

O Brasil, aliás, está no radar da oncologia mundial. “Os dados brasileiros mostram uma realidade muito similar à dos Estados Unidos e Europa”, conta Pedro Henrique Isaacsson, oncologista do Grupo Oncoclínicas e do Hospital Israelita Albert Einstein. “Temos pesquisas de ponta e um corpo clínico altamente qualificado. Isso nos coloca em uma posição privilegiada”.

A seguir, você confere as principais novidades apresentadas na Asco 2023.


Câncer de mama


O tratamento do câncer de mama HER2-positivo teve um grande avanço com a apresentação de dados sobre o uso de trastuzumabe deruxtecana (T-DXd) em pacientes com doença metastática. O medicamento, que já era utilizado em casos mais avançados, mostrou-se eficaz também em fases iniciais da doença, reduzindo o risco de recorrência em 25%.

“É uma quebra de paradigma. Abre-se um novo horizonte para mulheres com câncer de mama HER2-positivo”, afirma Debora Gagliato, oncologista do A.C.Camargo Cancer Center.

Outra boa notícia é o estudo MonarchE, que avaliou o uso de abemaciclibe em pacientes com câncer de mama inicial, receptor hormonal positivo e HER2-negativo. A droga, que inibe a progressão do ciclo celular, reduziu em 30% o risco de recorrência da doença em cinco anos. “É um avanço importante, que pode mudar a prática clínica”, diz Debora.


Câncer de pulmão


No câncer de pulmão, as novidades giram em torno da imunoterapia. Um estudo demonstrou que a combinação de nivolumabe e ipilimumabe, duas drogas que ativam o sistema imunológico para combater o tumor, aumentou a sobrevida de pacientes com câncer de pulmão de células não pequenas metastático em comparação com a quimioterapia.

“É um resultado muito animador. Mostra que a imunoterapia veio para ficar e que pode ser utilizada em diferentes cenários”, comenta Igor Protzner, oncologista do Hospital Sírio-Libanês.

Outro destaque é o uso de lorlatinibe em pacientes com câncer de pulmão de células não pequenas com mutação no gene ALK. A droga, que age diretamente sobre as células tumorais, prolongou a sobrevida livre de progressão da doença em mais de três anos em comparação com outros tratamentos.


Câncer de próstata


Para o câncer de próstata metastático resistente à castração, um estudo apresentou resultados promissores com o uso de olaparibe, um inibidor de PARP (enzima envolvida na reparação do DNA). A droga reduziu o risco de progressão da doença ou morte em 34% em pacientes com mutações nos genes BRCA1 ou BRCA2.

“É um avanço significativo para um grupo de pacientes que tem poucas opções de tratamento”, ressalta Fernando Cotait Maluf, oncologista do Hospital Israelita Albert Einstein.

Além disso, um estudo avaliou o uso de PSMA-617, uma terapia de medicina nuclear que utiliza um radiofármaco para atingir as células tumorais. A abordagem, que já era utilizada em casos mais avançados, mostrou-se eficaz também em pacientes com câncer de próstata metastático resistente à castração, aumentando a sobrevida em 20%.


Câncer colorretal


No câncer colorretal, a boa notícia é o uso de trastuzumabe deruxtecana em pacientes com doença metastática e superexpressão da proteína HER2. A droga, que já era utilizada em câncer de mama, mostrou-se eficaz também nesse tipo de tumor, com uma taxa de resposta de 45%.

“É uma nova opção de tratamento para um grupo de pacientes que antes não tinha muitas alternativas”, celebra Rachel Riechelmann, oncologista do A.C.Camargo Cancer Center.

Outro destaque é o uso de regorafenibe em pacientes com câncer colorretal metastático que já haviam sido tratados com outras terapias. A droga, que inibe o crescimento do tumor, aumentou a sobrevida em cerca de um mês em comparação com o placebo.


Melanoma


Para o melanoma metastático, um estudo demonstrou que a combinação de nivolumabe e relatlimabe, duas drogas que ativam o sistema imunológico, aumentou a sobrevida livre de progressão da doença em comparação com o uso de nivolumabe isoladamente.

“É mais uma evidência de que a imunoterapia é uma ferramenta poderosa no combate ao melanoma”, afirma Eliana Santoro, oncologista do Hospital Sírio-Libanês.

Além disso, um estudo avaliou o uso de dabrafenibe e trametinibe em pacientes com melanoma metastático e mutação no gene BRAF. A combinação das duas drogas, que agem diretamente sobre as células tumorais, prolongou a sobrevida global em mais de cinco anos em comparação com outros tratamentos.


Câncer de ovário


No câncer de ovário, um estudo apresentou resultados promissores com o uso de olaparibe em pacientes com doença avançada e mutação nos genes BRCA1 ou BRCA2. A droga, que já era utilizada em outros tipos de câncer, reduziu o risco de progressão da doença ou morte em 70%.

“É um avanço significativo para um grupo de pacientes que tem poucas opções de tratamento”, destaca Andreia Melo, oncologista do Hospital Israelita Albert Einstein.

Outro destaque é o uso de bevacizumabe em pacientes com câncer de ovário avançado. A droga, que inibe o crescimento de vasos sanguíneos que alimentam o tumor, aumentou a sobrevida livre de progressão da doença em cerca de quatro meses em comparação com o placebo.


Novas fronteiras da oncologia


Além das novidades em tratamentos específicos, o congresso da Asco também abordou as novas fronteiras da oncologia, como a inteligência artificial, a edição genética e a nanotecnologia.

“Estamos apenas começando a arranhar a superfície do que é possível fazer com essas tecnologias”, afirma Stephen Hahn. “Acredito que, em um futuro próximo, teremos ferramentas ainda mais poderosas para combater o câncer”.

A inteligência artificial, por exemplo, pode ser utilizada para analisar grandes volumes de dados e identificar padrões que escapariam ao olho humano, auxiliando no diagnóstico e na escolha do tratamento mais adequado.

A edição genética, por sua vez, pode ser utilizada para corrigir mutações que causam o câncer, prevenindo o desenvolvimento da doença ou tornando as células tumorais mais sensíveis aos tratamentos.

Já a nanotecnologia pode ser utilizada para desenvolver medicamentos mais eficazes e com menos efeitos colaterais, que liberam as drogas diretamente nas células tumorais.

“São tecnologias que estão em constante evolução e que têm o potencial de revolucionar a oncologia”, conclui Ricardo Costa. “É um momento de muita esperança para pacientes e profissionais de saúde”.

 
 
 

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